Ladeira da Misericórdia
Após mais um dia arrastado, exausta de corpo e espírito, Cinara ainda precisava encarar a bendita ladeira. Todos os dias. Ano após ano. Durante muito tempo, subiu aquele caminho quase esmorecendo, carregando nas pernas o peso do cansaço e no peito a revolta por ter de repetir sempre o mesmo trajeto. Até que, num instante de lucidez surgido entre uma respiração ofegante e outra, percebeu: talvez fosse hora de aceitar o processo.
Certo dia, acompanhada por uma colega de jornada igualmente desgastada, dividiam confidências e lamentos enquanto subiam. Quando atingiram a metade do percurso, Cinara se deu conta de que a conversa havia tornado a subida menos cruel — quase leve. Surpresa, comentou a descoberta. A amiga, com um olhar que misturava resignação e fé, admitiu que a ladeira continuava sendo para ela um desafio diário, uma prova a ser superada. Dizia que, todas as vezes que colocava o pé no primeiro trecho, erguia o olhar ao céu e rogava por misericórdia. Era essa misericórdia, segundo ela, que tornava cada subida menos pesada.
Aquela confissão ficou gravada em Cinara. Voltou com ela para casa, caminhou com ela no silêncio da noite e despertou com ela no dia seguinte. Talvez fosse isso, pensou. Uma questão de posicionamento. Decidiu que subiria a bendita ladeira como um gesto de misericórdia para consigo mesma.
Na tarde seguinte, como de costume, lá estava ela diante da subida árdua. Mas desta vez havia um propósito: ressignificar o caminho. Começou a jornada cansativa e solitária tentando domar os próprios pensamentos, impedindo que se perdessem em murmurações e velhos protestos internos.
Passo após passo, percebeu que era possível encontrar beleza até ali. O que antes era apenas mato se tornou cenário; e, no meio do cenário, um pé de ipê começava seu florescimento. Aquele toque de cor rasgando a monotonia devolveu vida ao trajeto.
Mais adiante, avistou o monte. Notou, com surpresa, que pela manhã sua coloração era diferente. E, ao levantar o olhar para o horizonte, lembrou-se de como apreciava o pôr do sol na infância — um espetáculo que, sem perceber, deixara de ser visto. Agora, ali, as linhas douradas do céu e o laranja derramado sobre os montes a transportavam a um tempo bom, simples, sem tormentas. Um tempo em que se preocupar era exceção, não hábito.
Foi mergulhando nessas lembranças que escolheu continuar. Mesmo com as pernas ardendo de fadiga, recusou-se a parar. Não queria interromper a descoberta. E embora, em certos momentos, a vontade de chorar quase transbordasse, conteve-se — não por orgulho, mas por timidez: temia que alguém a visse e julgasse sem entender.
Os pensamentos então a levaram a outras memórias da ladeira: dias de chuva, dias de solidão, e aquele dia específico — o pior deles — quando percebeu que o cansaço físico era o menor dos pesos que carregava. Houve também o dia em que se despediu, no topo da ladeira, da melhor amiga antes de sua partida. E aquele outro, quase cômico, em que acompanhou uma amiga chorando por um acontecimento banal; ambas subiram todo o trajeto soluçando como se o mundo tivesse acabado, para depois descobrir que era apenas o choro imaturo de quem ainda pouco sabia da vida.
Aos poucos, Cinara foi entendendo: a bendita ladeira não era apenas um obstáculo físico — era um gesto de misericórdia da própria vida, uma metáfora disciplinada que lhe ensinava a arte de reconciliar-se com o inevitável, de acolher o irreversível, de seguir mesmo quando dói.
E assim percebeu a verdade simples e libertadora: ela não podia controlar a existência da ladeira, mas podia controlar como a encarava. Com o tempo — quase sem perceber — ganhou virtudes, resistência, sabedoria e um condicionamento físico e emocional que a tornaram menos vulnerável ao processo.
Um dia, subindo em silêncio e leveza, Cinara notou algo surpreendente: o fim da ladeira quase sempre chegava quando ela menos esperava.
E lá estava ele, diante dela. O topo. O ponto final dos quase dois mil metros que um dia pareceram insuportáveis. Agora, porém, não eram mais inimigos — eram testemunhas. Testemunhas da mulher que ela se tornara enquanto subia.

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